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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

BIBLIOTECÁRIO/A, ATRAIA, CONQUISTE E MANTENHA: CLIENTES, AMIGOS E AMORES

Por Ana Luiza Chaves

No cenário de #marketing e na vida de modo geral estamos sempre praticando essas ações; atrair, conquistar e manter: clientes, amigos e amores, que, para a obtenção do resultado positivo, necessariamente, devem ocorrer nessa ordem.
A primeira, mais efêmera, necessita de uma ação inovadora, pontual, diferente e, obviamente, atrativa. A segunda, para ser bem-sucedida, depende da primeira, é quando o investimento desta se concretiza, e a terceira, essa depende de muito esforço e dedicação, com certeza, a mais difícil.

Olhando para o mercado, vemos que um produto novo ou uma novidade na oferta de serviços pode atrair novos #clientes, e isso pode levar à conquista, fazendo com que ele compre a primeira, segunda e terceira vez. Na vida, da mesma forma, atraímos amigos e amores, conseguimos conquistá-los, mas, em ambos os casos, a tarefa árdua é a manutenção daquilo que conquistamos.
Compreender o cliente, saber ouvi-lo, respeitá-lo, atender a suas expectativas, ajudar a solucionar seus problemas, ter empatia, tudo isso é fundamental na fase da manutenção, pois, se houver falha, teremos que retornar a primeira das fases e reiniciar o ciclo. Da mesma forma, quando se tratam de amigos e amores, quando menos esperamos se vão, por algum motivo, não soubemos mantê-los interessados, falhamos, negligenciamos.
Ter pensamento #empreendedor, no sentido mais amplo da palavra, é uma das vertentes que estamos enfatizando nesse espaço do Mural. Decidir, realizar, oferecer valor, criar oportunidades, ver além, pensar estrategicamente, são atitudes que marcam esse perfil.
Mais um ano está terminando e é com esse perfil que queremos nos revestir para desejar aos #bibliotecários que sejam bem-sucedidos tanto na vida profissional como na pessoal, que consigam atrair, conquistar e manter por todo o ano novo que se inicia seus clientes, amigos e amores, como verdadeiros empreendedores.
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terça-feira, 1 de setembro de 2015

USUÁRIO DE BIBLIOTECA OU AVATAR? POTENCIALIZANDO O ATENDIMENTO EM BIBLIOTECAS



por Fabíola Bezerra


No universo do marketing digital, a figura do “avatar” representa a personificação do público-alvo, conhecer as características, as necessidades, as expectativas do seu público farão a diferença na hora de criar uma campanha de marketing. Um mesmo produto apresenta-se de formas diferentes para públicos diferentes, nesse caso, generalizar a campanha seria um erro que comprometeria os resultados.

Quem trabalha diretamente com o público em unidades de informação, muitas vezes comete o erro de tratar todos os usuários de maneira igualitária, o nivelamento no relacionamento com a comunidade é gerado pela falta de conhecimento individualizado em relação aos membros da comunidade. A aplicabilidade dessa teoria do marketing digital na construção da figura do, ou dos avatares, seria, porventura, a ferramenta necessária para diferenciá-los. 

Na construção da figura do avatar, se faz necessário identificar suas principais características, sendo elas: Qual é o sexo do avatar? Onde ele mora? Qual a sua idade? Onde ele trabalha? Além de informações do tipo: Profissão? Estado Civil? Principais Necessidades? Sua Dor? Seus Medos? Nessa perspectiva, os sistemas de informações que gerenciam as bibliotecas, poderão responder a maioria dessas perguntas, de posse delas, o bibliotecário terá condições para identificar os hábitos e preferências de seus usuários, individualizando assim o atendimento, dessa forma, conduzindo-os a resultados significativos.

Contextualizando para o ambiente de bibliotecas, poderemos Ilustrar, ou identificar diferentes figuras de avatares. Exemplificando essa questão poderemos citar as bibliotecas universitárias. Elas possuem três públicos bem definidos: o corpo discente, o corpo docente e os técnicos administrativos, cada um deles com suas especificações. O corpo discente dependendo da instituição pode ser formado por alunos de Medicina, Farmácia, Biologia, Matemática, Computação, Engenharias, Psicologia, etc. As necessidades variam conforme a demanda de cada curso, que podem refletir-se no tipo de acervo, na frequência e uso da biblioteca, na quantidade de empréstimos, ou, no próprio manuseio com o livro dentre outros. Assim como, um mesmo produto da biblioteca poderá ter significado diferente dependendo da sua aplicação pelo usuário. Um bom exemplo disso são os treinamentos, conhecer o interesse e a motivação do público em relação ao treinamento, irá influenciar o discurso do facilitador.

No entanto, é importante reconhecer os usuários de bibliotecas como avatares, sabendo que, cada biblioteca possui mais de um avatar. A aplicação desse conceito do marketing digital à Biblioteconomia facilitará a personalização do relacionamento com a comunidade e a excelência na prestação de serviço, da mesma forma que a comunidade terá um relacionamento diferenciado com a biblioteca. 

E você conhece os diferentes tipos de avatares que sua biblioteca presta serviço? Vamos conversar sobre isso?

terça-feira, 21 de julho de 2015

LIVROS NO CÁRCERE: ENTRE A TÉCNICA BIBLIOTECÁRIA E A DEMANDA SOCIAL

por Catia Lindemann 

O embate neste assunto centra-se na dúvida: Será que basta levar obras literárias, catalogá-las e classificá-las nas estantes, disponibilizando aos apenados para de fato cumprir a missão da biblioteca/bibliotecário no cárcere? Pois lhes afirmo, por experiência própria, que é preciso readaptar e reinventar as técnicas bibliotecárias, considerando sempre que uma biblioteca deve ser moldada para o seu usuário e não o contrário. A premissa consiste que, no cárcere, lidamos com uma biblioteca destinada para um usuário diferenciado, onde as regras da prisão ultrapassam as regras da Biblioteconomia por uma questão de ordem e segurança.



Uma vez trabalhando com livros dentro da Instituição Penal é que se compreende que a teoria nem sempre consegue ação dentro da prática bibliotecária, manter uma biblioteca no cárcere é encarar a Biblioteconomia Social como uma nova realidade. E de que modo o bibliotecário deve se colocar diante desta realidade? Morigi (2002) cita que:

Não basta apenas realizar procedimentos técnicos (classificar, catalogar e indexar), estes, sem dúvida, são muito importantes para a formação do profissional. Entretanto, os bibliotecários devem ir além destes saberes e atividades técnicas, precisam buscar elementos teóricos ligados às ciências humanas, que fortaleçam a sua condição de cidadãos e profissionais.     

Portanto, é preciso, ainda, muito trabalho reflexivo para compreender que a atuação do profissional bibliotecário vai muito além de somente organizar o acervo desses espaços de leitura. O papel do bibliotecário vai além da técnica.
           
Segundo Trindade (2009), as bibliotecas prisionais desempenham uma função de cunho social de suma importância dentro do processo de ressocialização do apenado. Faz-se necessário que este profissional tenha ciência de que não lida apenas com a classificação de obras, mas, acima de tudo, com a classificação de saberes, fazendo valer o seu papel de agente de educação e de intermediário da informação.




No cárcere temos de reinventar e readaptar a Biblioteconomia. Tudo que aprendemos como teoria é contraposto quando se trata de biblioteca prisional. Olhar aquele espaço e lembrar-se de “Planejamento de Acervo”, mas lembrar de que lá dentro a priori é a segurança, a simples distribuição de estantes não pode ser colocada como de regra na “Biblio”, e sim de modo em que tenhamos a visão do apenado por completo, portanto, nada de estante na horizontal e sim dispostas na vertical. Ângulo que coloca em risco as obras, uma vez que o sol bate diretamente nas mesmas, mas que possibilita visão de tiro em caso de rebelião.

Adotar uma classificação que venha a ser não apenas entendida pelos apenados, mas acima de tudo compreendida, cumprindo também as metas eficazes de tempo e organização. Mesmo não sendo uma biblioteca escolar, se as cores correspondem ao entendimento do usuário apenado, então que assim seja, pois ele é o objeto direto do espaço de leitura. E se, ainda assim, ele sentir dificuldades, que seja então ouvido. Exemplo disso são as cores sugeridas pelos apenados, caso da cor azul clara que, segundo eles, é a cor do céu, que representa quem já morreu e, portanto, classificaria as obras de “Chico Xavier”.

Simplesmente alocar estantes num espaço vazio e nelas concentrar livros não torna o cárcere diferente em nada. Não basta levar as obras, é preciso torná-las familiares aos apenados, promovendo a mediação da leitura, debatendo e trazendo de volta preceitos eruditas de nossa profissão.


O cárcere trata de um público-alvo com suas especificidades. A biblioteca, enquanto espaço destinado às obras e à leitura, deve seguir, lógico, a técnica da Biblioteconomia e colocar em prática tudo o que nos foi ensinado durante a formação, porém a biblioteca, enquanto ferramenta social destinada ao apenado, não tem como seguir sozinha sem estar respaldada pelo respeito às regras do cárcere e, principalmente, respeito à cultura do preso, ou seja, Biblioteconomia Social.

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Confira maiores informações em: <http://www.youtube.com/watch?v=JG4tCPQu0U8&feature=youtu.be>. Acesso em: 21 jul. 2015.


REFERÊNCIAS

MORIGI, Valdir José. O bibliotecário e suas práticas na construção da cidadania. Revista ACB, Florianópolis, v. 7, n. 2, p. 135-147, jul. 2002. Semestral. Disponível em: <http://tinyurl.com/o38cly5>. Acesso em: 20 jul. 2015. 

TRINDADE, L. L. Biblioterapia e as bibliotecas de estabelecimentos prisionaisconceitos, objetivos e atribuições. 2009. 118 f. Monografia (Bacharelado em Biblioteconomia) – Departamento de Ciências da Informação e Documentação,
Universidade de Brasília, Brasília, 2009. Disponível em: <http://tinyurl.com/lznceoq>. Acesso em: 20 jul. 2015.

terça-feira, 12 de maio de 2015

A INFORMAÇÃO E O SERVIÇO DE REFERÊNCIA


Por Ana Luiza Chaves

O produto é sempre o mesmo, mas embrulhado e entregue de diferentes formas. É tarefa do bibliotecário buscar a informação certa, na hora certa, para entregar à pessoa certa!

Mas como? Há algo mais amplo e genérico do que a informação?

Principalmente nos dias atuais, quando se fala de informação, abre-se um leque sem limites de dimensão. A informação está em todo lugar, se apresenta em diferentes formas, pode ser simples ou complexa, dentro dela os assuntos são multifacetados, e por aí vai...

E como saber qual informação deve ser entregue à qual usuário?

É aí que entra a relação interpessoal entre usuário e bibliotecário, conhecida pela expressão biblioteconômica serviço de referência.

Nesse momento único (porque cada um é cada um), há todo um processo de interação, de comunicação, de troca, em que um tenta externar o que procura (linguagem natural), e o outro procura entender, para depois fazer a transcodificação para a linguagem adotada (linguagem controlada).

Buscamos a resposta seja onde for, esteja ela onde estiver, mesmo que seja só um encaminhamento, uma indicação externa, um link, uma dica. É a biblioteca sem paredes, buscando informação na rede, por intermédio de outras bibliotecas ou centros, de outros bibliotecários e até de outros profissionais, tudo em função e em prol do usuário, centro do problema em questão. Eu diria, é a conspiração para o bem.

Na verdade, independente de trabalhar no serviço de referência de uma biblioteca ou de um centro de informação, todo bibliotecário é bibliotecário de referência. Mas, afinal, o que é essa referência de que falamos?

Para qualquer dicionário, referência é o ato de referir ou consultar; narração ou relação de algo; aquilo que se refere; sinal ou indicação que remete o leitor a outra fonte; fonte de informação ao qual o leitor é remetido; obra em formato de dicionário ou enciclopédia, que contém fatos e informações úteis.

O assunto nos compêndios biblioteconômicos é bem mais antigo e complexo do que as definições acima, já sintetizadas na atualidade. Remonta ao século IX, quando Samuel Sweett Green, em 1876, fez a primeira proposta explícita de um programa de assistência pessoal aos leitores, diferentemente da ajuda ocasional − o Serviço de Referência. E aí vieram outros estudiosos e teóricos da área, que só contribuíram e ampliaram o conceito, tornando-o discutido na literatura até os dias de hoje, isto porque agora, além do serviço presencial (face a face), temos a versão virtual, em que, por sua vez, estão em jogo outros conceitos.


Mas o auxílio que o usuário precisa vai além da própria obra de referência, permeando todo um complexo de atendimento, até o resultado da busca final. Portanto, é constituído da atividade-fim resultante dos outros serviços realizados pela biblioteca (registro, catalogação, classificação, indexação), com o objetivo de atender às demandas informacionais dos usuários.

Conforme Grogan (2001), hoje exercemos o serviço de referência em seu sentido mais amplo, pois o bibliotecário de referência tanto cumpre as funções informacionais como as funções instrucionais, educando o usuário a utilizar melhor os serviços da Biblioteca, principalmente a recuperar a informação da qual necessitam. O processo ocorre em duas grandes etapas: análise da natureza do problema e localização das respostas. Para esse processo, o autor definiu oito passos:

1. O problema: É o momento em que o usuário sente necessidade de buscar alguém da biblioteca que o auxilie;

2. A necessidade de informação: É o que o usuário necessita; no entanto, isso em algumas vezes não está muito definido;

3. A questão inicial: É a busca do usuário pela informação. São as indagações que ele faz, na tentativa de recuperá-la;

4. A questão negociada: É o momento em que o bibliotecário recebe do usuário as suas questões;

5. A estratégia de busca: É o momento da intervenção do bibliotecário, quando ele faz a análise da necessidade do usuário e transcodifica para o sistema de linguagem do acervo, selecionando e localizando as fontes adequadas;

6. O processo de busca: É a procura das questões do usuário junto ao acervo, agora já adaptadas ao contexto;

7. A resposta: É o resultado da busca, que pode ser já a solução do problema se satisfizer à necessidade do usuário apresentada no início do processo;

8. A solução: É a resposta sem qualquer dúvida para atender ao usuário e, se há dúvida, o processo se reinicia.

As tecnologias da informação estão aí, prontas para serem utilizadas e dar o aporte necessário para a eficácia e eficiência de qualquer serviço de referência e informação. Se nós bibliotecários não nos sentimos bibliotecários de referência, é hora de correr atrás do prejuízo e ver o que está faltando em nossa formação (conhecimentos, habilidades e atitudes – CHA), pois, na nossa essência, devemos todos ser bibliotecário de referência enquanto atuamos, para que sejamos também uma referência de bibliotecário.

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GROGAN, Denis. A prática do serviço de referência. Brasília, DF: Briquet de Lemos, 2001.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

REPRESENTAÇÃO DO CONHECIMENTO NA PERSPECTIVA DO USUÁRIO

Por Fabíola Maria Pereira Bezerra
 
Os sistemas de classificação existentes oferecem um “imenso mapa do conhecimento”, formando um arcabouço, em que as ideias podem articular-se, umas com as outras, de diversas maneiras. A proposta aqui não é questionar os sistemas de classificação existentes, muito pelo contrário, acredito que eles respondem, de forma eficiente, ao objetivo para o qual foram criados. O ponto que gostaria de abordar é em relação à dificuldade de compreensão, por parte dos usuários, dessa simbologia utilizada nas bibliotecas no processo de representação do conhecimento.

Durante nove longos anos, estive à frente dos treinamentos para usuários de biblioteca universitária. Foi um período onde pude conhecer mais detalhadamente a visão deles sobre bibliotecas e sobre bibliotecários. Um dos grandes GARGALOS de comunicação que identifiquei foi em relação à compreensão organizacional adotada pela biblioteca para guarda dos livros nas estantes, tornando-se, algumas vezes, um grande labirinto de difícil locomoção.

Observo que a preocupação por parte de bibliotecários consiste em seguir “cegamente” as regras e padrões de tratamento da informação, ignorando que os usuários não sabem a utilidade destas regras e muito menos o que elas significam. Nesse sentido, acredito que o grande desafio do profissional da informação será sua postura em não se limitar a dominar a técnica de manuseio e compreensão dos complexos códigos de classificação e catalogação, mas sim a transmissão e decodificação destes em uma linguagem mais próxima à de sua clientela, criando fórmulas de simplificação, assumindo seu papel de “facilitador”, mediador entre usuários e sistema de recuperação da informação. A compreensão truncada do processo de tradução pelos usuários é consequência da ausência de sentido da simbologia alfanumérica, utilizada pelas linguagens de classificação.
 
 
NA MAIORIA DAS VEZES, o que é óbvio para o bibliotecário não é evidente para o usuário. Baseados neste princípio é que muitos sistemas de informação são sub-utilizados pelos seus usuários potenciais.

Gostaria de ilustrar a minha fala apresentando rapidamente como exemplo o resultado da minha pesquisa de Mestrado, que tratou sobre a representação nos sistemas de informação. O universo pesquisado foram 600 usuários de duas bibliotecas universitárias e uma biblioteca pública.

Dentre outras questões, procuramos conhecer o nível de compreensão que os mesmos possuem em relação ao sistema de classificação, materializado nas etiquetas dos livros. Do universo pesquisado, somente 10 usuários associam a classificação ao assunto do livro. Quando observamos as respostas apresentadas pelos usuários que assumidamente reconheceram não entender o significado dos números é que fica evidente o quanto nosso sistema de representação tem pouco significado para eles:

“É um código estranho e inacessível ao utilizador comum”;
“Se é possível ou não 'levar para casa';
“Não entendo a etiqueta na estante, há sempre um funcionário para auxiliar”;
“Sei que são números através dos quais a biblioteca vê quantos exemplares e que livros tem, mas para mim isso não interessa”;
“Frequento esta biblioteca há 4 anos e ainda não consegui entender o modo de organização dos livros”;
“Para mim não tem significado, mas acredito que para os bibliotecários deve ter”;
“Essas etiquetas referem-se apenas ao local da estante a que o livro pertence. Essa informação é apenas útil para quem vai arrumar a estante”;
“Não sei ao que se referem, talvez para regulamento interno, não é relevante”;
“Porque nunca perdi tempo a analisar essas etiquetas, é porque compreendo que fazem parte do sistema de informação da biblioteca e, por conseguinte, não necessariamente perceptível aos leitores”;
“Penso que deve ser um código adotado pela biblioteca, que tem sentido para eles que o designaram e não para nós que utilizamos”;
“Apesar de não serem de grande utilidade para os leitores, têm grande importância para a organização dos livros por seções (e para todo o tratamento bibliotecário, facilitando posteriormente a aquisição dos livros”;
“São apenas um código para identificação dos livros, sem interesse para o usuário”;
“Para identificação do patrimônio”;
“Apenas sei que os livros estão organizados por ordem alfabética de autor”;
“Raramente consigo identificar o código com os livros, para mim trata-se apenas de um código do livro”;
“Porque haveria de ter?”;
“Provavelmente terá relação com os temas e ordem cronológica de aquisição”;
“Ano de publicação e autor”;
“Sim, às vezes, nunca me explicaram a lógica”;
“Basicamente a única coisa que uso das etiquetas é o nome do autor, que é fácil encontrar alfabeticamente, já que está tudo organizado por temas. O resto, não entendo”;
“Não percebo qual é a lógica da numeração”;
“Tem muitos algarismos dispostos sem ordem aparente”;
“Não gosto de perder tempo a procurar livros, logo as etiquetas nada me dizem. Prefiro pedir ajuda”;
“É utilizado um código pouco intuitivo”;
“Os números não têm significado porque não são de fácil compreensão”;
“Entendo que tenha significado para os técnicos”;
“Se não fossem os auxiliares, não encontrava nada”.

 
 
Não defendo a tese de que os usuários de bibliotecas precisam aprender a classificar livros, ou mesmo saber manusear os complexos códigos de classificação. Meu questionamento limita-se à compreensão dos usuários em relação à estrutura (ou ideia) utilizada na composição dos números na etiqueta dos livros. É desanimador enquanto profissional perceber que usuários de bibliotecas não associam os números aos assuntos, ou mesmo não compreendem que a organização da biblioteca segue uma estrutura lógica baseada na divisão do conhecimento; para eles, os números são simplesmente uma forma de codificação de localização que permite à biblioteca vir a saber onde cada livro está. Se houvesse por parte deles uma compreensão, por menor que fosse, certamente o processo de recuperação da informação seria muito mais eficiente, e a interface biblioteca vs usuário muito mais amigável.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

ERGONOMIA - Bibliotecas à escala humana

Por Filipe Leal

Desde os tempos imemoriais que o elemento estruturante das bibliotecas foi o livro. Os edifícios e as coleções, os serviços e as atividades, o papel e o estatuto dos bibliotecários. Tudo era pensado em função do livro. Todavia, o surgimento da internet e dos novos media veio colocar em causa essa ordem natural das coisas. Surge a pergunta: Atualmente, qual é o elemento estruturante das bibliotecas? 

Muitos dirão: a tecnologia. Não me integro nesta corrente de opinião. Considero que o elemento estruturante das bibliotecas é o ser humano. Defendo as bibliotecas à escala humana. Num artigo de 1998, Designing libraries round human beings Maurice B. Line desenvolve esta tese de forma magistral. Confesso que foi um dos textos que mais contribuiu para moldar a minha forma de pensar e de fazer as bibliotecas públicas.

Na prática, que implicações tem esta tese na forma como organizamos as nossas bibliotecas? Gostava de deixar aqui algumas pistas para reflexão e discussão:

1. Tornar os espaços das bibliotecas mais agradáveis e acolhedores

No nosso imaginário coletivo as bibliotecas surgem como edifícios monumentais cuja escala arquitetónica facilita a sua afirmação no tecido urbano e cuja dimensão simbólica é a de um templo do conhecimento. A biblioteca é projetada de fora para dentro. Isto é tão verdadeiro para a New York Public Library (1895) como para a Seattle Public Library (2004).

Desenhar as bibliotecas à escala humana implica pensá-las de dentro para fora. Antes de mais interessa que as pessoas se sintam bem nelas, como se sentem bem em suas casas. Para isso o ambiente tem que ser informal e acolhedor, o mobiliário tem que ser funcional mas confortável, o atendimento tem que ser profissional mas caloroso, a experiência tem que ser agradável e enriquecedora.

Os espaços devem ser organizados tendo em atenção as necessidades das diferentes faixas etárias (crianças, jovens, adultos, seniores), dos diferentes tipos de utilização (leitura silenciosa, trabalho de grupo, animação da leitura, etc.) e dos diferentes serviços prestados (consulta local, empréstimo domiciliário, formação de utilizadores, acesso internet, etc.). A biblioteca da criança não é a mesma que a biblioteca do sénior, a biblioteca de quem faz uma pesquisa na internet não é a mesma biblioteca de quem vem assistir a uma sessão de contos. Conjugar tudo isto num único lugar é a maior virtude e a maior fragilidade das bibliotecas.

2. Partir da identificação das necessidades das pessoas para criar serviços

Os bibliotecários, ao longo dos tempos, têm presumido saber quais são as necessidades, interesses e gostos dos seus públicos. Muitas das vezes replicam aquilo que vem nos manuais de biblioteconomia ou partem de uma abordagem baseada nas suas convicções pessoais. 

Criar bibliotecas à escala humana implica que as pessoas sejam consultadas antes de se desenhar e implementar um novo serviço que pretenda satisfazer as suas necessidades. Essa consulta pode ser feita de forma regular (através de formulários de sugestões), de forma pontual (estudo de mercado ou inquérito de satisfação) ou de uma forma estruturante (veja-se o exemplo da Urban Mediaspace Aarhus).

Se adotássemos esta abordagem iríamos, bem provavelmente, chegar a conclusões interessantes: alguns serviços que consideramos vitais não são valorizados pelos nossos usuários (por exemplo: serviço de referência bibliográfica); grande parte dos nossos recursos estratégicos são desperdiçados em serviços que não acrescentam valor aos nossos usuários; muitos serviços inovadores seriam resposta a necessidades banais dos nossos usuários (por exemplo: apoio à pesquisa na internet). Em última instância deveríamos adotar a máxima: bibliotecas para as pessoas (centradas nas suas necessidades) e com as pessoas (modelo de gestão participada).
 

 3. Escolher os livros que as pessoas efetivamente querem ler

Tradicionalmente, as bibliotecas são coleções de livros. Coleções escolhidas, organizadas e promovidas segundo critérios previamente escolhidos. Mas podemos questionar: Que livros devem ter as bibliotecas? Quais os critérios para a sua escolha? Quais os critérios para a sua organização? Quais os critérios para sua promoção? Para responder a estas questões podemos colocar-nos em dois pontos de vista opostos e, por vezes, inconciliáveis: o do bibliotecário; o do usuário. 

Do ponto de vista do bibliotecário, as bibliotecas devem ter uma coleção just-in-case, escolhida segundo critérios de qualidade, diversidade e pluralidade. A sua organização obedece a classificações biblioteconómicas que pretendem decalcar as taxonomias do conhecimento. A objetividade e estabilidade são as características mais apreciadas deste modelo de organização. A promoção, quando existe, é feita numa lógica expositiva pondo em evidência grandes efemérides ou temas sabiamente escolhidos pelos bibliotecários. É uma biblioteca construída a pensar em todos os hipotéticos leitores que um dia vão entrar pela porta dentro à procura de um livro com um título impronunciável de um autor completamente desconhecido.

Do ponto de vista do usuário, as bibliotecas devem ter uma coleção just-in-time, escolhida segundo critérios de novidade, atualidade e atratividade. A sua organização obedece a centros de interesse que decalcam as apetências e gostos dos usuários. A simplicidade e flexibilidade são as características mais apreciadas deste modelo de organização. A promoção, considerada indispensável, é determinante para estabelecer uma relação entre a procura dos usuários e a oferta da biblioteca. É uma biblioteca construída a pensar numa grande diversidade de tipologias de leitores (leitores de literatura, leitores de novidades, leituras ecléticos, leitores de género, etc.) e que procura responder a todas elas. 

Numa biblioteca à escala humana, os livros existentes são livros os leitores gostam de ler e não os livros que os bibliotecários acham que devem ser lidos. Todavia, esta biblioteca tem que ser construída no mínimo dominador comum, num meio caminho entre ambos os pontos de vista, entre o arquivo e a livraria.

4. Substituir a promoção da leitura pelo desenvolvimento do leitor

Perversamente a palavra promoção tem um duplo sentido: promover no sentido de elevar o estatuto; promover no sentido de impingir algo. Muitas vezes, a promoção da leitura parte erradamente do pressuposto de que alguém (mediador, professor, escritor, etc.) sabe o que é uma boa leitura / bom livro e decide impingir essa leitura junto a um potencial leitor. É uma ditadura do gosto baseada no cânon literário.

Numa biblioteca à escala humana, o processo tem que estar centrado no leitor. Promover adquire o sentido de elevar o estatuto. Primeiro há que identificar o perfil do leitor (competências leitores, gostos pessoais, histórico de leituras, etc.) para depois identificar os livros que melhor podem proporcionar uma boa experiência de leitura. Não existem bons / maus livros, não existem boas / más leituras. Todavia, existe um reverso negativo para esta moeda, o desenvolvimento do leitor só existe se for proporcionada uma diversidade de escolhas de leitura e uma ampliação das competências leitoras. Caso contrário haverá um nivelamento por baixo, levando a um outro tipo de ditadura do gosto, que é ditada pelas modas consumistas do escritor que está na berra ou do livro que está no top.

5. Assumir que a tecnologia é um meio e não um fim em si mesmo

A tecnologia adquiriu um estatuto de divindade: é onipresente, onisciente e onipotente. Os futurologistas defendem mesmo que a tecnologia (computacional ou robótica) irá substituir o ser humano, num cenário apocalíptico de extinção abrupta.

Bibliotecas sem livros, bibliotecas desmaterializadas, bibliotecas virtuais, biblioteca de babel, são as metáforas que usamos para estabelecer o paralelismo. Num cenário apocalíptico a tecnologia iria mesmo extinguir o leitor e a necessidade da leitura. O multimédia digital substituirá o texto impresso; o utilizador substituirá o leitor; o ruído substituirá o silêncio; o superficial e efémero substituirá o profundo e resiliente. Não estará longe o dia em que uma qualquer empresa de tecnologia irá produzir um interface que ligará o nosso cérebro diretamente à internet, permitindo-nos aceder instantaneamente a todo o conhecimento humano. Viveremos a entropia imaginada no Matrix. 

Até lá, nas bibliotecas à escala humana, tentemos utilizar as tecnologias como meios e não como fins em si mesmos. As tecnologias são ferramentas para passar do mundo fechado ao universo infinito. Para transformar a nossa biblioteca numa instituição hibrida, glocal, colaborativa, conectada. Para criarmos novas formas de aceder à informação e ao conhecimento, para facilitarmos e potenciarmos as aprendizagens ao longo da vida, para criarmos serviços e atividades inovadoras que acrescentem valor aos indivíduos e às comunidades que servimos.

Recordo que, num mundo dominado instrumentalmente pela tecnologia, como é o mundo orwelliano de 1984, o livro e a leitura são elementos que possibilitam uma réstia de esperança, subvertendo os unanimismos e criando um refúgio para o pensamento livre e para o amor.